domingo, 6 de março de 2011

O último sorriso dos olhinhos fechados

Eu acho lindo o sorriso de quem ri com os olhos, quem fecha os olhos pra rir. Só isso já me faz cair de amores por uma pessoa. E tenho muitos amigos que riem assim (não deve ser por acaso que são meus amigos).
Annie, ou Nini, era uma delas. Dá uma dor no peito, um pesar, saber que não vou mais ter essa alegria; alegria de ver seu sorriso, seus olhinhos fechando, me chamando pra fazer companhia pra ela ou pra sua mãe (causus da Polonesa - aqui no blog) ou mesmo sair pra jantar, me dar livros de presente e me fazer conhecer autores e personagens (ela era craque nisso. Trabalhou toda vida com cinema, tv e música).
Dedicou a maior parte dos seus dias e do seu talento, a um outro grande artista francês : Michel Polnareff. Como este mundo é cheio de coincidências e de acasos! Na minha adolescência, cantava, com meu francês tupiniquim, as músicas dos  discos dele e, quando trabalhei em Paris com o neto da Nini, tive o prazer de conhecê-lo e frequentar sua casa. Mesmo que não tenha sido muitas vezes, ele sempre foi super simpático. Nesta época, eles formavam um casal, depois, só continuou a grande amizade e o trabalho que os uniu até sexta-feira passada, dia 4/3/2011; o dia que ela partiu. Mais uma que parte antes do combinado. Muito antes.



Ela se foi por conta de um câncer daqueles brabos, em Paris. Falando com a filha dela e minha querida amiga, ela me disse que o sofrimento final foi muito grande. Nunca vamos aceitar a morte mas, ao mesmo tempo, mais difícil ainda é ver quem amamos sofrer tanto.

Foi uma grande produtora, de muito talento, tanto no teatro quanto no cinema. Produziu, em Paris, Hair, Godspell, Oh! Calcutta e Jesus Cristo Super Star.
Começou no teatro, em 1953, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant. Foi um grande começo e Anouk ficou sendo sua amiga para sempre.
Nos anos 60, ela fez uma série americana, nos EUA, tipo "I Love Lucy", onde ela fazia uma francesa que se apaixona por um americano. Me lembro dela me mostrando fotos no sexto mês de gravidez, cheia de cintas e amarras porque ninguém podia perceber que ela estava grávida. Depois voltou a Paris pra ter sua filha.
Trabalhou, depois da série, com Yves Montand e voltou a trabalhar com Trintignant, se tornando grande amiga da mulher dele, Nadine. Conheci Nadine passeando com os netos dela no Champs des Mars, em Paris. Eu, na época, era babá do pequetito, netinho de Annie. Mais tarde Nadine queria que eu trabalhasse com os quatro filhos da filha dela Marie, que faleceu, de uma forma dramática, há pouco tempo atrás. Me lembro de brincar com ela dizendo:
- Quatro homens eu não aguento não!

Annie foi casada com Dirk Sanders, dançarino e coreógrafo, um dos homens mais bonitos que já conheci. Tenho revistas e fotos deles quando jovens, no começo da vida de casado e profissional. Lindo casal.
A convite de Annie, subi a rampa do Palais des Festivals, em Cannes. Não era época de festival, nem tinha tapete vermelho. Fui assistir ao último ensaio aberto de Luc Plumondon e Riccardo Conccianti com o musical Notre-Dame de Paris. Emocionante a grandiosidade de tudo : do teatro, dos atores-cantores e da música. Ganhei deles o CD que sempre tô ouvindo.
Poderia passar horas escrevendo sobre minha querida amiga, mas depois volto e conto mais.
Nunca vou me esquecer de que ela me chamava de "esprit libre". Merci Nini. Merci por tudo : por sua alegria, pelo que me ensinou, por sua amizade, por sua linda família.

Ela será cremada no Père-Lachaise, nesta quinta-feira, 10 de março, às 11:20h.

Quando alguém me pergunta o que eu faria se tivesse muita grana, sempre respondo:
- Usaria pra poder ir e vir, com mais facilidade, pra qualquer lugar, levando meus amigos junto.
Nesta quinta-feira, usaria pra ir até Paris dar meu último beijo em minha querida amiga.


Estas fotos de Annie foram feitas por, nada mais nada menos, que o grande Doisneau. Lembra do beijo na praça do Hotel de Ville? Pois é.

http://en.wikipedia.org/wiki/Notre-Dame_de_Paris_(musical)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Doisneau

10 comentários:

Anônimo disse...

Sei que é clichê mas a morte é só uma passagem...
Viviane Santana

Ieda Dias disse...

Mas, como dói, né Viviane!
bjos

Anônimo disse...

E é por isso que precisamos viver o HOJE e nos esforçarmos pra pra nos vermos pessoalmente, olhos nos olhos.
aí me lembrei da musica:SEMPRE NO MEU CORAÇÃO,HAJA O QUE HOUVER...
Beijos doces pra vc hj em especial.Ormenia

Ieda Dias disse...

Falou e disse, amiga...bjos bjos

Anônimo disse...

A pessoa mais proxima de mim que já partiu foi meu pai há cinco anos atrás.No começo eu via de longe uma pessoa parecida com ele e por um segundo meu cerebro pensava que era ele, depois eu me lembrava que ele não estava mais aqui.
Hoje já não acontece mais isso.
A gente vai aceitando aos poucos.
Viviane Santana

Ieda Dias disse...

Verdade Viviane...ainda bem que fica só uma boa lembrança. Deus me livre do sofrimento duro do momento. Se ele não amenizasse a gente não aguentaria. Já perdi muita gente nesta vida. Fazem falta, todos fazem. Mas continuo a viver e não deixo a alegria sair de mim. Seria bem mais ameno, pensar e sentir realmente que a vida é uma passagem. Mas, não é. Mas, vamos tocando o nosso bonde.
bjos

Elvira disse...

Nossa Ieda!
Tão nova... Tão bonita...

Um beijo e muita paz e muita luz para todos que ficam. Que esse vazio possa ser amenizado com o tempo.

Elvira

Maga. disse...

Um abraço apertado.

Ieda Dias disse...

Linda mesmo Elvira...mas não posso dizer que não viveu a vida...lá isso viveu! E muito! Bom, né mesmo?
bjos meu bem

Ieda Dias disse...

Brigadim Maga.
bjo grande

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