sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Metralhadora apontada pra mulher indefesa.


Sexta-feira é o domingo dos muçulmanos.
Pra nós, que trabalhávamos em média 10 horas por dia, 6 dias por semana, era o dia de ficar na horizontal recolocando os ossos em ordem.

Se tivéssemos muito animados, íamos até Rabania - uma cidade turística feita pelos franceses, com um lago artificial enorme - alugavamos um bangalô e era bem legal também.

Entre outras coisas que se tinha pra fazer em pleno deserto, no único dia livre da semana, era dar uma faxina no quarto. Durante toda a semana a gente nem ligava pra confusão que ia armazenando.

Numa sexta- feira, resolvemos, minha amiga e eu que dividíamos o quarto, dormir até mais tarde e depois partir pra faxina.
E foi o que aconteceu.

Depois de terminada a peleja, eu fui tomar meu banho e ela foi colocar o lixo lá fora, num tamborzão que tinha do lado da casa.

No que ela tá lá, despejando o lixo, sentiu uma presença atrás dela. Virou e viu um soldado iraquiano, armado de metralhadora, com uma cara de médios amigos. Ela olhou pro prédio mais longe, onde era o clube, e viu uma movimentação, bandeiras, e deduziu que tínhamos visita de alguma ôtoridade local. Não era comum soldados no acampamento. Tínhamos nossa própria segurança.
Mais tarde, soubemos que o governador de Ramadi nos visitava, por isso tinha tanto soldado espalhado no nosso território.

Ele perguntou o que ela tava fazendo, "Como assim, não tá vendo? Despejando o lixo." Ele não entendeu o que ela tava fazendo ali, naquele local. "Ora bolas, eu moro aqui, seu mané." Ele também não entendeu. Ela desistiu de explicar e foi voltando pra dentro de casa e o soldado com a metralhadora em punho atrás dela.

Pode uma cena mais bizarra? Você sair pra despejar um simples lixo e uma figura querer saber quem você é, de onde vem e pra onde vai, diga a senha.... tenha dó.

Pois pode.
E não é que o zé veio seguindo ela até o quarto?

Ela abriu a porta e ele veio na cola. No que entrou no quarto, tô lá, eu linda e loira, pelada, recém saída do banho. Não me lembro mas, no mínimo, devo ter falado: "Cliente novo?"

O cara ficou lá, estatelado, parado, olhando pra mim e eu, pelada tava, pelada continuei. Ele não se movia, não sei se o espanto era porque via uma mulher pelada pela primeira vez, nos seus 20 e tantos anos de vida, ou porque não imaginou que fosse ser tão ruim sua primeira experiência. Sei lá. Só sei que grudou o olho em mim e eu fiz aquilo que sempre faço numa hora dessas. Sem pensar, tive uma reação fora da lógica: juntei as pernas e fiz continência pro moço. Afinal, era um soldado, de qualquer forma, meu superior, já que eu não era nada além de ser povo.

Foi o que faltava pro moço reagir. Reconheceu o sinal e bateu em retirada.

À noite, sentadas no bar tomando alguma coisa, avistamos o soldado sentadinho num canto, olhando ainda, mas desta vez, vermelhinho.

Nunca vou saber se era de prazer e alegria ou de ódio. Deve ter contado pros colegas e ninguém acreditou. Pedir pra repetir a cena, coragem ele não teria. Ver outra mulher nua, só casando e, mesmo assim, pelo buraquinho da camisola. Como a cena da manhã, nunca mais !


" Inicie a viagem como se fosse uma criança, curiosa e alegre; durante o trajeto desfrute como um adulto respeitoso e solidário; quando retornar, sinta-se como um ancião sábio que voltará a ser criança amanhã." Mercedes Sáenz

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O arroz com feijão dos Alpes Franceses.









Aquela vida de cidade do interior, do interior do Brasil, das Minas Gerais de outrora, você não encontra mais. Aquela comidinha de fogão à lenha, fazer quitandas, fornadas de bolos e biscoitos. Acabou-se o que era doce. Doce e salgado. Com a correria do dia a dia, mesmo nas cidades mais calmas, a dona de casa quer mais é ir até a padaria da esquina e comprar tudo prontinho, pãozinho de sal, leite pasteurizado e iogurte com frutas.

Estão errados? Tão nada! Só pensa que eles tão errados, quem vai visitar e fica louco achando que vai encontrar a mesa de café da manhã ou de jantar, com tudo que comia na infância e ainda guarda na memória cheiros e sabores.

Mas, aqui nos Alpes Franceses, nas montanhas brancas de neve, na roça organizada e com muita qualidade de vida, a coisa é diferente; ainda guardam muitos dos costumes de outrora. Mesmo com todos os supermercados, oferecendo milhões de alimentos, com uma infinidade de variedades, cores e sabores, eles não se deixam seduzir totalmente.

Durante o verão, todos saem pra passear ao ar livre, respirar, armazenar vitamina D aproveitando o solão, e colher frutas pra fazer compotas e geléias que serão consumidas nos longos meses de inverno.

E vão também plantar e colher legumes, que comerão com o maior orgulho, apreciando e comparando a safra desse ano com a do ano passado.

É muito legal ouvir: "As framboesas esse ano não ficaram bonitas, secaram, porque o sol foi muito forte". Ou : "as myrtilles (mirtilo em Português) deram como nunca. Não conseguia dar fim naquele mundo e fiz vidros e mais vidros de compota, congelei potes e potes".

E dá-lhe a congelar caldos, legumes, sopas, tudo com produtos de cada horta caseira, de cada troca entre vizinhos e, a cada dia, sai uma coisa mais gostosa do que a outra, de uma despensa sem calefação, que mantém tudo como se fosse numa câmera fria, não deixando perder nada e todos se alimentando muito bem durante o ano todo.

E, foi com um desses potes congelados, que foi feita essa tarte/maison ( torta feita em casa) que é uma delícia de lamber os beiços. A massa é crocante e quase não leva açúcar. Não agradaria à maior parte do paladar brasileiro, que é chegadinho num doce bem duçim. Eu também sou mas, metade dessa aí, foi devorada por mim. Uma parte na sobremesa, outra no café, pontualmente servido às 4 da tarde.
Esse almoço simplesinho de meio de semana, tinha, como entrada, uma salada verde : vários tipos de alface, devidamente pincelados com um molho de mostarda de arrepiar no azedume e na gostosura.
O prato quente era esse empanado de peito de peru. A massa quebrava de tão macia. Perseguia o empanado, vagens verdinhas da horta da casa.
Depois, queijos com pão, de sobremesa e depois a torta de myrtilles. Depois fruta ou iogurte. Eu não dispenso o iogurte. Natural e sem açúcar.
Pra quem gostasse, tinha vinho e, pra mim que não bebo, suco de maçã.
Ainda chocolate suisso, comprado no país vizinho, há 1 hora daqui.

E foi tudo.
Querem saber o que comemos hoje?

Uma peixada feita por mim, com leite de coco e tudo. Como manda o figurino. E o peixe era posta de bacalhau fresco. Uma delícia!
E fez tanto sucesso quanto a torta local.

Cada qual dentro do seu quadrado e ensinando e aprendendo com o outro.
Bom dimais da conta, sô!

Ps.: brincar na neve antes do almoço, foi só pra abrir o apetite.
Como se precisasse!!!



"O mundo é um lugar que ninguém conheceu ainda pela descrição. É necessário percorrê-lo, a gente mesmo, para saber do que se trata." Philip Dormer Stanhope













quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Quando tem que ser é mesmo. Não adianta fugir, amigo.


Eu trabalhei no Iraque por muitos anos e conheci muitas pessoas. Muitas mesmo! E um dos meus melhores amigos trabalhou lá também, no mesmo período que eu e, durante dois meses, quase do lado da minha sala, e nunca o vi, nos reunimos ou nos encontramos. Gente demais trabalhando em um país estranho.Tudo era muito novo.

Voltando pro Brasil, resolvi dar um rolé pela Europa. Minha primeira passada por lá. Conhecer a velha senhora, eu e uma amiga.
Uma colega de trabalho, sabendo que passaríamos por Paris, deu-me uma carta (O que é isto? Pesquise no Google) pra entregar pra ele. Eles tinham trabalhado juntos. Além de dar notícias dela, teríamos a oportunidade de conhecer um cara legal, segundo ela.

OK. Eu recebi a carta e partimos pra nossas merecidas férias. Isso era lá pelo final de agosto.

Caminhamos e caminhamos e, esta viagem, também resultou em muitos causus que contarei noutra hora..

Chegamos a Paris. Como ficaríamos poucos dias, liguei logo pro moço. Como prometido, cheio de simpatia, ele nos convidou para jantar e dar um passeio no intervalo entre um trabalho e outro.

Estava em Paris desde que saíra do Iraque, juntando uma graninha antes de retornar ao Brasil e, talvez, o fizesse no final daquele ano ou início do próximo.
E fomos e passeamos e ele nos mostrou muitas coisas lindas que, somente aqueles que moram na terra, tem o prazer de conhecer, e me mostrou uma pracinha que era sua favorita, com um único banco de madeira, uma árvore no centro e, naquela noite, foi encomendada uma puta lua cheia que fazia gritar a alma. Esse lugar tornou-se um dos meus lugares preferidos pra mostrar aos amigos, sempre que nos encontrávamos em Paris .

Foi um encontro muito bom!

Ele me contou sobre a família em Belo Horizonte, onde moravam e não era muito longe da minha casa, na verdade, era pertinho.

Quando nos separamos, ele me deu o telefone de uma tia (usava isso na época) e me pediu pra ligar, dizendo que a gente tinha se encontrado, que tava tudo bem, essas coisas que tia adora saber... que ele tava limpinho, não tava com fome e com muita saúde.

E passamos por Portugal e Espanha antes de chegar em casa.

Bão, cheguei e fui me readaptando com a Pátria Amada Idolatrada, Salve! Salve! lentamente. Liguei pra tia do meu novo amigo, dei a notícia, ela ficou toda feliz.

Voltei a trabalhar, reencontrar com os amigos e, finalmente, retomar minha rotina.

Um dia, do nada - devia tá procurando um telefone na agenda - eu vi o nome da tia e, só Deus sabe porquê, decidi ligar pra ver se eles tinham notícias, se sabiam quando ele voltaria, quer dizer, qualquer novidade.
Um primo dele atendeu o telefone e eu perguntei. Ele me disse: "um minuto que tão tocando a campainha e pode ser que seja ele".
Dois segundo depois, meu amigo pega o telefone e já vai perguntando: "Uai! como você sabia que eu tava chegando?" Eu disse: "chegando como?" E ele: "acabo de chegar do aeroporto nesse minuto".

E nunca mais nos separamos.
"Um amigo alegre numa viagem é quase tão útil quanto um veículo." Públio Siro

NATAL 2025 DE NOSSA PREMAMETTASCHOOL

Como estou sem computador, as postagens nao ficam boas.  Postei com celular mesmo, só pra dividir com todos minha alegria e o grande resulta...