segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

*Le repos des lunettes"




E mais um amigo se foi. Partiu antes do combinado mas, mesmo se tivesse ficado por muito mais tempo, jamais eu poderia assimilar tanta sabedoria, tanta inteligência e curiosidade. Mais uma biblioteca que se apaga.

A amizade foi crescendo devagarinho porque, quase todo ano venho aqui passar uns tempos. O lugar é calmo, reconfortante e revejo meus amigos queridos. Estive, ano passado, por 2 meses e meio com ele e, agora em NY, voltando pro Brasil, não pensei duas vezes antes de pular pro lado de cá, e ficar mais um tikim, com aquele que já tava chegando ao finzinho da sua estrada, aproveitar as últimas gotas e "l'emmerder" (encher o saco dele), como ele mesmo dizia. E consegui mostrar alegria até o final. Fazê-lo rir, que era o que ele gostava.

Outro dia ele não queria comer e, eu, sacaneando, me ofereci pra fazer uma feijoada. Foi engraçado, ele puxou forças de onde não tinha mais, pra falar forte:
- Não ! Não e não ! (ele sabia que eu não tava brincando).

À mesa, sempre me sentava em frente a ele. Ele me chamava de "meu vis-à-vis" ( o que tá em frente ).
- Onde está meu vis-à-vis?
Hoje almocei em frente à uma cadeira vazia. Espero que "meu vis-à-vis" esteja dormindo em paz.

Quando invernava de nevar, de manhãzinha, assim que ele se levantava, olhava pra fora e repetia como se fosse um mantra - Oh! Tá nevando! Que beleza! (puto da vida porque neve, pra quem mora aqui, é quiném chuva contínua pra nós. Imagine 4 meses chovendo sem parar).

Não tinha uma só pergunta que ficasse sem resposta, mas não era uma resposta qualquer. Era resposta que acrescentava. E os vários dicionários que ele tinha, eram consultados com a mesma frequência que você olha pro celular durante o dia. A explicação de uma simples expressão, vinha ilustrada com uma história (já contei algumas delas aqui).

Ano passado, faltando uns dois meses pro aniversário dele, ele começou a perguntar, a cada meia hora :
- Que dia é hoje? Depois de alguns dias e várias vezes respondida a mesma pergunta, descobrimos que ele contava os dias pro aniversário. Queria completar 80 anos. E conseguiu com louvor! Quase fez 81...

A memória do presente já não durava mais que alguns minutos e eu ria e fazia ele rir. Outras duas perguntas constantes: - Quantas horas são? - Hoje é que dia? (como se alguma destas duas respostas fosse mudar o rumo da vida dele). Um dia, alguns minutos depois de ter respondido a uma dessas duas perguntas, eu perguntei séria e queria uma resposta mais séria ainda : - Me diz a verdade verdadeira: jura que não se lembra de ter me perguntado, à meia-hora atrás, a mesma coisa?
E ele, seríssimo:
- Juro. Eu perguntei?
- Só 2.500 vezes hoje.
Ele riu até (nunca vou saber se tava me gozando).
As vezes, ele chegava perto e eu já ia dizendo: - São 3 e meia, hoje é quarta-feira, 5 de fevereiro e faltam X dias pro seu aniversário.
Ele ria até, mas dai a meia hora........

No Natal francês, eles comem, o tempo todo, uma bala muito gostosa chamada, "papillote" que vai durando até depois do Ano Novo. Parece uma bala de goma envolvida em chocolate e a embalagem é linda. Ele amava e comia quilos - às vezes com permissão da dona da casa, às vezes, escondido. E, quando queria comer, fazia quiném criança : me oferecia e, se eu aceitasse, ele tinha desculpa pra comer outra. E eu aceitava mesmo sem vontade...rs.

À mesa, nos últimos tempos, com o apetite bem reduzido, era um divertimento só. Pra enrolar e não comer, ele inventava casos, contava histórias, se lembrava de velhas canções, cantava, e eu não podia dar muita corda, senão apanhava da dona da casa. Como não podia o tempo todo, eu brincava de "vaca amarela" e ele ria. E eu dizia:
- Pare de enrolar e coma, senão não tem sobremesa! (quiném a gente faz com criança) mas ele já tava pouco ligando pra sobremesa. Até o papillote já não fazia tanto sucesso.

Eu gostava de fazer ele rir, me deitando com ele e fingindo que aproveitava enquanto a patroa tava distraída em algum lugar. Ele riiiia...
Esta semana eu acho que se lembrou disso e me disse com dificuldade:
- Quer se deitar aqui comigo?
No que respondi:
- Cê ficou maluco? Não tá vendo que sua mulher tá em casa?
Foi um dos poucos sorrisos que consegui arrancar dele. O humor continuou presente até o final.

Assim que cheguei, a mulher dele me disse:
- Depois que você foi embora, em abril, pelo menos umas 10 vezes, ele me fez prometer que eu o levaria ao Brasil pra te visitar.

Semana passada, depois de uma manhã sofrida, ele ficou olhando pra janela com olhar perdido, distante e  pensei que tivesse olhando pro nada, ou nada vendo. Passei a mão em frente aos olhos dele e ele disse imediatamente: - Tô enxergando! (com um minúsculo sorriso no canto da boca). Tentei ver se o divertia um pouco, mostrei dois dedos e perguntei:
- Quantos dedos você tá vendo? e ele : - 18.
Pra logo depois continuar : - To vendo o V da vitória.
Insisti na brincadeira e mostrei o dedo do meio.
Ele fez uma careta de reprovação e deve ter pensado "Ela não me respeita mesmo. Em nenhuma situação".

Acordou assustado há uns 3 dias e disse: -A guerra!
Tentei levantar a moral dele e perguntei:
- Você se levantou pra ir ou tá correndo dela ? Mas no final da minha frase, ele já dormia profundamente. Os mesmos medicamentos que aliviavam sua dor, também o derrubavam como um nocaute. Só que, quando o nocaute chegou, já foi no 15º assalto (ele não era homem de ser derrubado tão facilmente assim).

Não deu pra você ir me encontrar no Brasil meu amigo, mas eu levo você no meu coração. Pra sempre. E pra qualquer lugar onde eu for.

* O descanso dos óculos

26 comentários:

  1. Estou aqui engasgada. Muita força nessa hora Ieda, que eu sei que você tem,mas sei também o tanto que esse momento é sofrido para todos. Beijo forte na dona da casa também. Missão dada é missão cumprida.

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  2. Brigadim meu bem e acabei de ler seu recado pra dona da casa e ela ficou tao feliz e engasgada como voce.
    bjos bjos e brigadim

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  3. Triste, mas lindo.
    O nó na garganta é certo.
    Força pro povo aí.

    Abs,

    Bê.

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  4. Afff DonaIêda...tô gotejando pelos olhos o sentido do coração. Só mesmo beijuuss procê que sei como lida, sabiamente, com essas "viagens"... Aki, essa postagem precisa de um marcador novo: crônicas...

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  5. Chorei.
    Um abraço pra você Ieda!

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  6. Emocionei-me um bocado, sem ao menos saber de quem se trata!
    Emocionei-me, mais ainda, com seu gesto de compartilhar, de forma tão intensa e delicada, os últimos momentos "vis-à-vis" de quem passou pelos caminhos por onde andou...
    Solidarizo-me com você neste momento.
    Um abraço forte
    Maria Elisa

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  7. Impossível não chorar.
    Gostaria de tê-lo conhecido.
    Lindo seu texto que, como ele, mantém o humor até nas horas doídas.

    Beijo pra você e Michette.

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  8. Acabei de perder tb a minha velha companheira aqui na Italia, a minha sogra que eu tanto adorava, que me ensinou tantas coisas, se foi... Como ela desejava, pois ja nao aguentava mais viver, mas deixando um enorme vazio nos meus dias, mas uma enorme alegria na minha alma, que resta feliz por ter tido a oportunidade de te-la conhecido!

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  9. Brigadim Be...tamo segurando o tisunami
    bjos

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  10. Bjos Regis quèrida....so escrevi o que saiu do coracao...
    brigadim e bjos

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  11. Bridadim Maria Elisa. Ficaram muitas coisas boas.
    bjos bjs

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  12. Anoca, ele iria gostar muito de você. Sempre amou pessoas inteligentes. Ia rolar muito papo.
    bjos meu bem

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  13. Pois é Brenda, se é que serve de consolo, a gente nunca tá sozinha num barco. E como você disse, que bom que teve a alegria de conhecê-la. Eu digo o mesmo do meu amigo.
    bjos

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  14. Perdi meu pai assim derrepente.
    E as vezes fico pensando o quanto nós ainda podiamos viver junto.
    Mas a gente tem que pensar que pessoas boas quando partem vão para um lugar melhor.È nisso que eu acredito de verdade e é nisso que eu penso todos os dias.
    Viviane Santana

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  15. Ainda bem Ieda, que vc está aí p abraçar e de certa forma distrair sua amiga,quem fica tb morre todos os dias....de saudades.
    Que a lembrança dos momentos felizes superem logo essa perda,q daqui a pouco vcs possam lembrar somente coisas boas, c certeza uma pessoa especial.
    Abraço forte p vc e s amiga

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  16. Ô Iêda que momento tão especial né ? Ele esperou por vc antes de partir sorrindo. Que bom vc ter estado aí com ele e com a sua amiga. Fale pra ela que estamos enviando-lhe muitas energias positivas e orações. Mas fiquem tranquilas, pq toda " passagem " é um novo renascer. Um carinhoso abraço a vs. Patyy

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  17. ô meu bem, minoria feliz essa que tem você nos últimos momentos nessa vida.... beijinhos marlaise

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  18. Você sempre contou os casos do Nonô, que parece que a gente conhece ele um pouco. Você é muito especial e sempre transmite muita força nos momentos difíceis. Deus foi generoso permitindo que vc estivesse aí para amenizar um pouco essa dor. Beijos e beijos na Michette.

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  19. Muito bonito o seu relato.
    Deve ter sido uma linda amizade.

    Fique bem.

    Bjs.
    Elvira

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  20. Pois é Viviane, é isso que nos conforta a todos.
    bjos e brigadim

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  21. Maga, tenho dito isso pra família. Muito obrigada pelas palavras
    bjos

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  22. Patrícia, que bom que vc acredita nisso. Só penso que pelo menos aquele corpo deixou de sofrer.
    bjos meu bem

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  23. Kátia, Michette esta emocionada com as palavras de todos. Você não pode imaginar o quanto. Muito obrigada de coração.
    bjos meu bem

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  24. Mar quérida...se você diz, eu fico feliz.
    bjos, bjos

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  25. Foi mesmo Elvira. E continuará sendo com todos da família. Grande família!Bonita família!
    bjos e brigadim

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